Palavras caem sobre mim
Mas nenhuma delas me fala verdades
E a minha única ação a elas
É o desprezo à mentira pobre
Envolta no pano da vergonha
Um egoísmo ao lado da desgraça

E no que dá para acreditar?
No meio de tudo
O vento sempre sopra idéias cinzas para palavras coloridas
E todas vem na minha direção

Se desprendem os sonhos
As canções e a esperança já se foram
A dor é a obra da ação do passado
O presente e a fonte da nossa desilusão
E o que mais poderíamos esperar do futuro?
Palavras fáceis para bocas hábeis

E no que dá para acreditar?
No meio de tudo
O vento sempre sopra idéias cinzas para palavras coloridas
E todas vem na minha direção.

(…)

do que adianta se ter as palavras se eu não posso le-las
do que adianta ver as frases se não posso decifra-las
eu não consigo entender o porque d’eu não conseguir ver
que as palavras não querem mais falar comigo
e todo o dizer que a elas julgo é uma simples versão
da solidão que eu me entrego,
esperando que alguém leia as palavras para mim

sem a vogal, a consoante se sente tão vazia
e sem a escrita o pensamento se torna tão vago
do que se trata a sombra de um papel vazio
de qual assunto a voz quer me falar
eu não escuto, eu não entendo, eu não quero entender
as palavras não falam mais comigo
e um desejo ardente me faz quer ler elas

(…)

Quanto tempo levará até juntar tudo outra vez? Uma eternidade, semanas, dias. Horas e mais horas para a bruma se desfazer e o pôr-do-sol tornar-se mais vivo e intenso. Ou, talvez, tudo isso já exista, porém meus olhos estão ofuscados pelas cinzas deixadas no caminho, por todos aqueles que me atravessaram. Por mim mesmo. Talvez esse dia nunca chegue, mas prefiro acreditar numa outra manhã.

Corte. Caixas, papéis. Costura. Jogar, amassar, rasgar, guardar e esconder. Corte. Lembranças, remorsos, fúria. Costura.

Tem sido assim desde que nasci. Por que eu gosto tanto disso? Talvez acomodação. Talvez definição. É como organizar meus pensamentos, livrar-me de minhas confusões. Temporário. Desfaço-me da poeira . Contudo, mais cedo ou mais tarde ela voltará por lá e também aqui por dentro.

Aqui quase não me desfaço de nada, escondo sem saber, até algo voltar pegando-me de surpresa. A cada porta fechada há uma lágrima e um sentimento de culpa. É apenas uma questão de tempo até a próxima estrada. Um último olhar e mais uma caixa de lembranças.

(…)

O homem
um bicho morto por si mesmo,
de desgosto dos seus passos,
e das suas palavras
morto de si mesmo.

Homem,
um nome próprio
a máscara para esconder a cumplicidade
entre seus atos, entre seu olhar
hoje morri sem acreditar
que o escritor de todas as histórias desse mundo
nunca morreu

Um homem,
destitui de si mesmo a chance de ser um homem
o homem se deixar ser um bicho
se destroi por dentro
se desmonta com o tempo
só pra sentir o gosto da dor
só para odiar o momento que ele mesmo escolheu ter

o homem é a doença dele mesmo
os olhos fecham,
apenas para indicar que amanhã começará tudo de novo
e sua lágrima se tornou lástima
e sua sombra seu perseguidor
você morreu ao nascer
e deixou viver a chance de querer morrer
para agora chorar e pedir perdão
você deixou cair
o momento passou,
passou e você perdeu
antes era,
agora já foi

(…)

A água entre as pedras cercadas de verde foi um convite ao esquecimento. A cada caminho percorrido sob o sol, meus pés eram envolvidos por aquela terra acolhedora. O vento, tão leve e tão cheio de força, levou o outro mundo para uma atmosfera distante.

Eu afundei nesse sonho como alguém que finalmente encontrou um lugar para se pertencer.

Enquanto um som embalava meus ouvidos, eu corria determinada a cair naquele abismo. E eu caía lentamente no sonho. A água gelada cortava o meu corpo, me paralizando e depois me trazendo renovada para o mundo.

A sensação era de ter sido abraçada por tudo aquilo. Um abraço longo e maternal. O meu desejo era ficar naquele lugar pra sempre, ou pelo menos, até conseguir compreender o que eu sentia.

Distanciei-me do mundo de dúvidas e de tristezas. Não havia falsidade e violência. Não havia a dor de uma infância roubada. Existia leveza, liberdade. Reencontro.

E um simples chamado me desprendeu daquilo que me fez sentir tão bem. Foi como ser obrigado a entrar num pesadelo. Só me restaram imagens e lembranças do que eu senti naquele lugar tão próximo e ao mesmo tempo tão longe de nós.

E hoje tudo parece ter sido apenas um sonho perfeito.

(…)

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