Junho 2008


A água entre as pedras cercadas de verde foi um convite ao esquecimento. A cada caminho percorrido sob o sol, meus pés eram envolvidos por aquela terra acolhedora. O vento, tão leve e tão cheio de força, levou o outro mundo para uma atmosfera distante.

Eu afundei nesse sonho como alguém que finalmente encontrou um lugar para se pertencer.

Enquanto um som embalava meus ouvidos, eu corria determinada a cair naquele abismo. E eu caía lentamente no sonho. A água gelada cortava o meu corpo, me paralizando e depois me trazendo renovada para o mundo.

A sensação era de ter sido abraçada por tudo aquilo. Um abraço longo e maternal. O meu desejo era ficar naquele lugar pra sempre, ou pelo menos, até conseguir compreender o que eu sentia.

Distanciei-me do mundo de dúvidas e de tristezas. Não havia falsidade e violência. Não havia a dor de uma infância roubada. Existia leveza, liberdade. Reencontro.

E um simples chamado me desprendeu daquilo que me fez sentir tão bem. Foi como ser obrigado a entrar num pesadelo. Só me restaram imagens e lembranças do que eu senti naquele lugar tão próximo e ao mesmo tempo tão longe de nós.

E hoje tudo parece ter sido apenas um sonho perfeito.

(…)

Eu vou

resgatar todos os anseios e a saudades de estar confortável em seus braços. Reanimar os lábios e os sorrisos como toques de veludo em sua pele. Acho que um simples abraço pode resolver.

Eu vou conquistar todas as revoltas e determinar todas as horas que eu vou poder perder. E eleger a derrota como um método de democracia, onde posso ser gentil quando perder e ganancioso quando  ganhar.

Eu vou voar por entre as nuvens, borrar o céu de cores. Desenhar o Azul nos olhos do céu. As estrelas terão a companhia do vermelho. E as dores irão se esquecer, ao ver a lua de prata.

Eu vou desistir de ouvir você, de ler palavras vazias. De escrever, publicar e de me animar. Afinal, se todas as pessoas que me entendem me ouvissem, eu não resgataria todos os anseios e saudades dos erros do meu passado.

Tudo roda, tudo volta. Eu vou. Eu desisto.

(…)

Hoje a beleza quase virgem da bondade me tocou. (apenas isso a se saber)

Sabe quando não se acredita mais nos sonhos e nos desejos que se realizam? Tal qual só um bom livro descreve as nuancias dessas desastrosas desaventuras românticas? Estamos todos esperando que o cavalo branco cruze a esquina. Nessa hora sim, os jardins estarão belos. Eu não falo as linguagem muda dos sonhos, onde as palavras se fazem em gestos, movimentos e vagas lembranças do ocorrido. Tão seco que já se esqueceu, eu ou você que nesta manhã, lembrou ao abrir os olhos e perceber que o sonho era apenas… um sonho.

Num convivio disocial. Numa cena fosca. E em cada palavra vaga, os sonhos são toda a realidade invisível, intocável e idealizadora de nossas vida.

Ao abrir o livro, na página 315 eu vi uma menina. A mesma que eu vejo a 314 páginas atrás. Fecho o livro, folheio numa velocidade onde ao final se escuta um barulho surdo, opaco, mudo e cego. O barulho de quem fechou o livro com força só para chamar a atenção, de quem só para de ler quando acabar o capítulo. Tal como a menina fazia.

Ela sonhava, ela idealizava. No final, não chorava. Ela sempre soube que o cavalo branco cruzaria a esquina, mesmo estando sem seu cavaleiro, mas que pelo menos o jardim estaria lá. Reluzindo os berais da porta de sua humilde casa. Personificação do livro. do livro dela. O nascimento do meu sonho e do sonho dela.

Se esquecer que ela é um livro e eu sou um sonho.

(…)

Tem dias em que eu acordo banhada em meus sonhos. Não aqueles que se têm ao dormir, mas sim aqueles que me invadem a qualquer hora do dia. Quando ele chega, desejo me desprender de tudo o que me cerca, de tudo que possa me fazer abrir os olhos. Há um sentimento de angústia mas, ao mesmo tempo, de conforto.

A música toca meus ouvidos e o nível alto me leva para longe do que há de real em volta de mim. Recuso-me a ouvir os passos, as vozes, ou até mesmo as folhas. Penso em tudo o que hoje eu não poderei tocar: viagens, abraços, olhares e ventos distantes. Tudo tão inalcansável diante das cores e dos papéis quem vivem em meus dias.
Enquanto o tempo é o meu castigo, enquanto os olhares são vazios e a cidade é coberta de tristes boas lembranças, nada posso fazer, senão buscar pontos de fuga, na suavidade de uma música ou numa foto de revista. Mas acordarei para moldar meu sonho, enquanto minha lágrima não for capaz de trazê-lo para perto de mim.

(…)

É tanta calma

Que até a alma esquece de se corroer por dentro de mim. Não sinto mais saudades das coisas boas, sinto saudade da esperança morta de desgosto na qual eu cultivava em meu jardim de solidão. Hoje, ele é regado de outros sentimentos e as sementes fazem nascer mais flores, para que mais outras vezes a minha alma possa se acalmar pela esperança que tudo me trás.

É tão viril essa expressão de dor que se passa na alma, é tão gelado esse frio na pele, é tão densa essa neblina, são tão escuros os seus olhos. Nessa fina distancia que separa minha boca da sua, existem todos os caminhos que me levam a te perder para sempre, estão as lágrimas que eu derramei e os lenços que você enxugou toda a sua tristeza que caia em gotas no chão.

De certo, é que essa distancia vai permanecer, e o que vai se sobrepor a todo esse vapor de sonhos é a certeza que esse é um remédio do passado e o futuro nem está em nossas mãos.

Takk.

(…)