Agosto 2008


do que adianta se ter as palavras se eu não posso le-las
do que adianta ver as frases se não posso decifra-las
eu não consigo entender o porque d’eu não conseguir ver
que as palavras não querem mais falar comigo
e todo o dizer que a elas julgo é uma simples versão
da solidão que eu me entrego,
esperando que alguém leia as palavras para mim

sem a vogal, a consoante se sente tão vazia
e sem a escrita o pensamento se torna tão vago
do que se trata a sombra de um papel vazio
de qual assunto a voz quer me falar
eu não escuto, eu não entendo, eu não quero entender
as palavras não falam mais comigo
e um desejo ardente me faz quer ler elas

(…)

Quanto tempo levará até juntar tudo outra vez? Uma eternidade, semanas, dias. Horas e mais horas para a bruma se desfazer e o pôr-do-sol tornar-se mais vivo e intenso. Ou, talvez, tudo isso já exista, porém meus olhos estão ofuscados pelas cinzas deixadas no caminho, por todos aqueles que me atravessaram. Por mim mesmo. Talvez esse dia nunca chegue, mas prefiro acreditar numa outra manhã.

Corte. Caixas, papéis. Costura. Jogar, amassar, rasgar, guardar e esconder. Corte. Lembranças, remorsos, fúria. Costura.

Tem sido assim desde que nasci. Por que eu gosto tanto disso? Talvez acomodação. Talvez definição. É como organizar meus pensamentos, livrar-me de minhas confusões. Temporário. Desfaço-me da poeira . Contudo, mais cedo ou mais tarde ela voltará por lá e também aqui por dentro.

Aqui quase não me desfaço de nada, escondo sem saber, até algo voltar pegando-me de surpresa. A cada porta fechada há uma lágrima e um sentimento de culpa. É apenas uma questão de tempo até a próxima estrada. Um último olhar e mais uma caixa de lembranças.

(…)