Capítulo 1


Tem dias em que eu acordo banhada em meus sonhos. Não aqueles que se têm ao dormir, mas sim aqueles que me invadem a qualquer hora do dia. Quando ele chega, desejo me desprender de tudo o que me cerca, de tudo que possa me fazer abrir os olhos. Há um sentimento de angústia mas, ao mesmo tempo, de conforto.

A música toca meus ouvidos e o nível alto me leva para longe do que há de real em volta de mim. Recuso-me a ouvir os passos, as vozes, ou até mesmo as folhas. Penso em tudo o que hoje eu não poderei tocar: viagens, abraços, olhares e ventos distantes. Tudo tão inalcansável diante das cores e dos papéis quem vivem em meus dias.
Enquanto o tempo é o meu castigo, enquanto os olhares são vazios e a cidade é coberta de tristes boas lembranças, nada posso fazer, senão buscar pontos de fuga, na suavidade de uma música ou numa foto de revista. Mas acordarei para moldar meu sonho, enquanto minha lágrima não for capaz de trazê-lo para perto de mim.

(…)

É tanta calma

Que até a alma esquece de se corroer por dentro de mim. Não sinto mais saudades das coisas boas, sinto saudade da esperança morta de desgosto na qual eu cultivava em meu jardim de solidão. Hoje, ele é regado de outros sentimentos e as sementes fazem nascer mais flores, para que mais outras vezes a minha alma possa se acalmar pela esperança que tudo me trás.

É tão viril essa expressão de dor que se passa na alma, é tão gelado esse frio na pele, é tão densa essa neblina, são tão escuros os seus olhos. Nessa fina distancia que separa minha boca da sua, existem todos os caminhos que me levam a te perder para sempre, estão as lágrimas que eu derramei e os lenços que você enxugou toda a sua tristeza que caia em gotas no chão.

De certo, é que essa distancia vai permanecer, e o que vai se sobrepor a todo esse vapor de sonhos é a certeza que esse é um remédio do passado e o futuro nem está em nossas mãos.

Takk.

(…)

A tempestade

As gotas tem tanta violência que ardem ao caírem no chão. Eu sinto molhar, a janela fechada assobiar os dizeres do vento forte que quer entrar e me fazer sentir algo, me trazer a resposta que eu tranquei lá fora ao entrar e fugir da minha pergunta. Eu queria acreditar que essa tempestade é só um pretexto para eu não sair de casa, para eu não acreditar que tenho algo a saber, que tenho uma resposta a receber. É só para distrair a cabeça.

Eu olho a fresta da janela, tentando ver que não a nada, tentando acreditar que não existe nada além das nuvem de algodão. As casas são feitas de doces e os telhados são cobertos de açúcar. O chão é como o mais puro chocolate embalado junto ao bilhete premiado de Willy Wonka. O vento me trás o cheiro de morango, é doce e ténue, parece que está perto de mim… ao meu lado.. em mim… sou eu.

Mas do que adianta? se eu não posso sair daqui, se não posso degustar… Não tenho como aproveitar. Só posso prover da dor do ver e não ter, do querer e não poder. E sofrer ao ver a tempestade lavar tudo, e mostrar a mesma cidade cinza que conheço. Das mesmas casas cor de velho, dos mesmo telhados sujos pelos tempo. E que as nuvens de algodão estão mais pesadas e prontas para descarregar mais uma vez com força todo o acumulo do tempo. O vento só me lembra terra molhada.

Isso tudo é para esquecer que mais um vez, eu me encontro pensando em você, e a pergunta que eu fiz a mim mesmo, só terá a resposta quando eu ter os seus olhos perto dos meus.

(…)

Hoje eu faço bodas de papel,

É aniversário dos meus amigos de plástico, das tristes notícias no jornal, do céu em forma de retalhos.
A todas as horas e antes do começo, eu enchi de ser eu mesmo, ainda que o mundo gire para trás, o som que me atormenta é a urgência do amanhã.
Hoje eu sou debutante da minha história, do diploma do meu nascimento até o certificado da minha morte. E assim foram formadas as páginas do diário de classe.

A todas as horas – Bodas de latas vazias
E antes das horas – Eram apenas broxes de papel

Hoje eu comemoro todos e todos os últimos dois dias. A porta de madeira que permanece trancada. Meu sonho com a lua que continua adormecido. Hoje eu começo a comemorar as derrotas que virão depois de amanhã.
Eu fiz bodas de papel, vendi discos de pano e meu mundo acabou num copo de plástico em cima da madeira podre da mesa da sala.

(…)

Eu olho para o óculos escuro sobre a mesa, numa inesperada manhã de sol. Depois de refletir nele um olhar de dúvida, jogo-o na bolsa e fecho a porta, sem trancá-la.
Mais uma vez, encontro pelo caminho olhares perdidos e inexpressivos. Quem saberá o que se passa por trás dos meus óculos? Meus olhos observam de sua própria janela este mundo singular, onde meu presente se encontra com o passado. A chuva volta de noite. A água cai sobre o asfalto das ruas por onde andei.

Um dia, tudo isso teve cheiro de novidade. Há pouco tempo, o ar carregava o amor e todos os momentos mágicos que se passava por aquelas ruas. Depois toda a agitação se desfez em lembranças que só os meus olhos parecem enxergar. Esse caminho, hoje tão conformista e cinza, tornou-se apenas mais uma passagem dentre outras que atravessam meu cotidiano.

As pessoas de outrora desapareceram na paisagem. Tudo se tornou inconstante e finito ao longo dos dias. Somente os momentos ficaram eternos aos meus olhos, escondidos por trás do óculos escuro.

(…)

Próxima Página »