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Tem dias em que eu acordo banhada em meus sonhos. Não aqueles que se têm ao dormir, mas sim aqueles que me invadem a qualquer hora do dia. Quando ele chega, desejo me desprender de tudo o que me cerca, de tudo que possa me fazer abrir os olhos. Há um sentimento de angústia mas, ao mesmo tempo, de conforto.

A música toca meus ouvidos e o nível alto me leva para longe do que há de real em volta de mim. Recuso-me a ouvir os passos, as vozes, ou até mesmo as folhas. Penso em tudo o que hoje eu não poderei tocar: viagens, abraços, olhares e ventos distantes. Tudo tão inalcansável diante das cores e dos papéis quem vivem em meus dias.
Enquanto o tempo é o meu castigo, enquanto os olhares são vazios e a cidade é coberta de tristes boas lembranças, nada posso fazer, senão buscar pontos de fuga, na suavidade de uma música ou numa foto de revista. Mas acordarei para moldar meu sonho, enquanto minha lágrima não for capaz de trazê-lo para perto de mim.

(…)

Eu olho para o óculos escuro sobre a mesa, numa inesperada manhã de sol. Depois de refletir nele um olhar de dúvida, jogo-o na bolsa e fecho a porta, sem trancá-la.
Mais uma vez, encontro pelo caminho olhares perdidos e inexpressivos. Quem saberá o que se passa por trás dos meus óculos? Meus olhos observam de sua própria janela este mundo singular, onde meu presente se encontra com o passado. A chuva volta de noite. A água cai sobre o asfalto das ruas por onde andei.

Um dia, tudo isso teve cheiro de novidade. Há pouco tempo, o ar carregava o amor e todos os momentos mágicos que se passava por aquelas ruas. Depois toda a agitação se desfez em lembranças que só os meus olhos parecem enxergar. Esse caminho, hoje tão conformista e cinza, tornou-se apenas mais uma passagem dentre outras que atravessam meu cotidiano.

As pessoas de outrora desapareceram na paisagem. Tudo se tornou inconstante e finito ao longo dos dias. Somente os momentos ficaram eternos aos meus olhos, escondidos por trás do óculos escuro.

(…)

A janela estava entreaberta…

E eu não acreditei na solidão que a brisa fria da noite sem lua me trazia. O céu não olhava para mim. As estrelas, a lua… Se esconderam.

A viagem foi mais rápida hoje, não tinha mais o livro em mãos. Havia pensamentos, detalhes que corroiam a minha percepção de que… a pessoa que estava ao meu lado queria passar… Deixei escapar o olhar vazio, olhar de quem não estava vigiando realmente os olhos daquela senhora que me fitava de maneira forte, como quem quer descobrir o porque da pessoa a olhar tão fixamente, e inexpressivamente. Deixei escapar que meu fone caiu, que minha mochila estava aberta, qu’eu simplismente estava preocupado.

A lotação mentia o seu nome, e variava entre o cheio e o vazio, não lotado. Aos poucos eu fui me recompondo, acho que ainda existem velhas piadas, novos sorrisos, novas formas de colocar uma mascara e fingir que está tudo bem.

Pensamentos
A sua descrição do que é vivo não condiz com a minha, a final, o que é estar vivo?

Antes da hora do jantar, a união da família mostra que há um sentido para o que nós pensamos, acreditar e te certeza que não nos enganamos quanto a todos. Essa noite, todos foram dormir em quartos separados e não houve janta, não houve abraços, não houve noite.

(…)

Eu sinto,

Que não consigo mais sentir meu pés. Que não consigo mais me referir a mim mesmo pelo nome, e nem responder aos outros que está “tudo bem”…
O tempo me fez cansar, me fez envelhecer. Mas… Ou Porém… No fim, tanto faz, do que adianta se lamentar se os nossos pés mesmos não estão no chão?

A janela. Ah! A janela. Tinham flores ali, eu lembro sim! Lembro de quando as reguei, quando abri a janela para arejar o local, lembro quando pintei suas grades, de quando as flores murcharam e o vento derrubou seu vaso.

Me sinto como o vaso agora, vazio. Falta completar, falta regar, a falta que o amor me faz.
Se fosse com os olhos que a rua me enxergar, eu teria mais conforto do o que eu sinto agora, pois os olhos das pessoas que me seguem, são os de quem em alguém quer reparar, olhar, conhecer, entender, saber o porque.

Pensamento

Hey, você! É, você sim! venha cá, preencha meu coração.

Só sons, que eu não escuto, que eu me isolo, para não escutar, os sons que você faz, que eu não escuto, que eu quero escutar, mas que eu não posso escutar. Só queria ouvir seus passos de novo.

(…)

A chuva chegou forte e inesperada nesta manhã.

Tentei encontrar um sentido para meus sonhos, mas já era tarde para alcançá-los. No caminho percorrido, os olhares não se encontram e o silêncio é abafado apenas pelo tempo. As gotas que correm com o vento pela janela brincam e confrontam nossa seriedade nas manhãs. Tamanha solidão coletiva.

Pensamento

Até onde vai a paranóia da nossa preocupação? Além de nossos olhos? Além de onde podemos sentir?

Não vejo nada além de meus papéis. Conto as horas, os minutos que insistem em não chegar. A música se dissolve, esquecida nos sonhos – desmanchou-se entre as fórmulas que se prenderam em minha cabeça. O ar se torna denso por um longo instante.
No fim, os papéis se invertem. Os pensamentos são vagos, os sonhos intensos. O vidro torna-se seco, transparente e sério. Mas a solidão permanece entre as canções, entre os olhares que se fecharam com o toque de um silêncio.

(…)

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