Capítulo 2


A água entre as pedras cercadas de verde foi um convite ao esquecimento. A cada caminho percorrido sob o sol, meus pés eram envolvidos por aquela terra acolhedora. O vento, tão leve e tão cheio de força, levou o outro mundo para uma atmosfera distante.

Eu afundei nesse sonho como alguém que finalmente encontrou um lugar para se pertencer.

Enquanto um som embalava meus ouvidos, eu corria determinada a cair naquele abismo. E eu caía lentamente no sonho. A água gelada cortava o meu corpo, me paralizando e depois me trazendo renovada para o mundo.

A sensação era de ter sido abraçada por tudo aquilo. Um abraço longo e maternal. O meu desejo era ficar naquele lugar pra sempre, ou pelo menos, até conseguir compreender o que eu sentia.

Distanciei-me do mundo de dúvidas e de tristezas. Não havia falsidade e violência. Não havia a dor de uma infância roubada. Existia leveza, liberdade. Reencontro.

E um simples chamado me desprendeu daquilo que me fez sentir tão bem. Foi como ser obrigado a entrar num pesadelo. Só me restaram imagens e lembranças do que eu senti naquele lugar tão próximo e ao mesmo tempo tão longe de nós.

E hoje tudo parece ter sido apenas um sonho perfeito.

(…)

Eu vou

resgatar todos os anseios e a saudades de estar confortável em seus braços. Reanimar os lábios e os sorrisos como toques de veludo em sua pele. Acho que um simples abraço pode resolver.

Eu vou conquistar todas as revoltas e determinar todas as horas que eu vou poder perder. E eleger a derrota como um método de democracia, onde posso ser gentil quando perder e ganancioso quando  ganhar.

Eu vou voar por entre as nuvens, borrar o céu de cores. Desenhar o Azul nos olhos do céu. As estrelas terão a companhia do vermelho. E as dores irão se esquecer, ao ver a lua de prata.

Eu vou desistir de ouvir você, de ler palavras vazias. De escrever, publicar e de me animar. Afinal, se todas as pessoas que me entendem me ouvissem, eu não resgataria todos os anseios e saudades dos erros do meu passado.

Tudo roda, tudo volta. Eu vou. Eu desisto.

(…)

Hoje a beleza quase virgem da bondade me tocou. (apenas isso a se saber)

Sabe quando não se acredita mais nos sonhos e nos desejos que se realizam? Tal qual só um bom livro descreve as nuancias dessas desastrosas desaventuras românticas? Estamos todos esperando que o cavalo branco cruze a esquina. Nessa hora sim, os jardins estarão belos. Eu não falo as linguagem muda dos sonhos, onde as palavras se fazem em gestos, movimentos e vagas lembranças do ocorrido. Tão seco que já se esqueceu, eu ou você que nesta manhã, lembrou ao abrir os olhos e perceber que o sonho era apenas… um sonho.

Num convivio disocial. Numa cena fosca. E em cada palavra vaga, os sonhos são toda a realidade invisível, intocável e idealizadora de nossas vida.

Ao abrir o livro, na página 315 eu vi uma menina. A mesma que eu vejo a 314 páginas atrás. Fecho o livro, folheio numa velocidade onde ao final se escuta um barulho surdo, opaco, mudo e cego. O barulho de quem fechou o livro com força só para chamar a atenção, de quem só para de ler quando acabar o capítulo. Tal como a menina fazia.

Ela sonhava, ela idealizava. No final, não chorava. Ela sempre soube que o cavalo branco cruzaria a esquina, mesmo estando sem seu cavaleiro, mas que pelo menos o jardim estaria lá. Reluzindo os berais da porta de sua humilde casa. Personificação do livro. do livro dela. O nascimento do meu sonho e do sonho dela.

Se esquecer que ela é um livro e eu sou um sonho.

(…)